Começo, Meio e Fim


Desligo a luz,
Esqueço a hora,
Desfaço a cama,
Espalho o corpo,
Penso,
Sonho,

Acendo a luz,
A hora acorda,
Refaço a cama,
Junto o corpo,
Esqueço,
Vivo,

Fecho os olhos,
A hora acaba,
Arrumam a caixa,
Endureço o corpo,
Desapareço,
Morro.

Salivando


A boca prova,
Deseja,
Saliva,
A boca grita,
Excita,
Degusta,
A boca devora,
Pedaços,
Sabores,
A boca anseia,
Morde,
Saboreia,
A boca satisfeita,
Fechada,
Cheia,
Quer mais.

Perfume no Lençol

Sinto saudade ao despertar,
Esse cheiro suave,
Que não chega ao ar,
Precisa ser puxado,
Tragado e degustado,
Apreciado como um buquê,
Desejado como a entrega,
Doce é o momento,
Solitário instante,
Onde perfumando,
Desfaz a vida e muda rumos,
Acordo com espaço vazio,
Com os pés procurando seu frio,
Mas não encontro desculpas,
Nem pedidos ou palavras,
Tudo que resta é o que sinto,
E ao amanhecer,
Sinto saudade.

Beijo Azul, Saudade Cinza

Gosto de imaginar um céu com estrelas, brilhos imaginados como sendo quase gotas, não inteiramente desistindo, nunca caindo, resistindo no alto. A noite vai caindo, as cores vão chegando e então, o azul. Tão sinistro e sorridente, com uma bola incandescente que acompanha seu chegar. Brilha intensa sobre o mar, seu espelho perfeito, sempre adorável e desejoso de sua atenção. Quando apinho parece tão distante seu caminho, mas no fim chega sua hora e no horizonte não demora, se apaga deixando o céu a se lembrar, com vermelho e laranja do machucar, quando cai a noite novamente. Entram as nuvens como se preparando o espetáculo, posicionado cada lado numa forma única e chorando como numa peça de teatro. Chora de saudades, de vontades desprendidas de desejo, de felicidade desprevenida da dor. Por acabarem as lágrimas no rosto triste, porque sem razão observamos quase que hipnotizados seu lamento, a dor de todo esse sentimento e quando passa, devora os sentidos, os dias, mentiras vividas e esquecidas num momentâneo flash. Hora de recomeçar, não pensar mais no que houve, nas enchentes e nos pesadelos, não somos nada perfeitos, pois tememos a nós mesmos e do que somos capaz de afastar, com uma afirmativa ou um negar. Faz parte do que somos, da nossa natureza de sonhos.

Mensagem

Mensagens flutuam novamente por sobre as águas salubres. Não mais perdidas, mas cheias de esperança, histórias de sorrisos e abraços acalantosos que seguem a noite até seu amanhecer. Vejo a alegria das palavras ao serem derramadas nesse recipiente do pensar. Antes procuravam razão em meio a solidão, agora possuem paixão para declamar. Querem ser as que descrevem os motivos, os momentos de açucar, o embebedar desse doce vinho. Das páginas, escorrem desejosas de tantos beijos e selvageria, invejosas de cada letra e fantasia. Despindo a intimidade, até que nua, se exponha na saudade de cada segundo que me faltou. Ponhe-se diante de mim, eclipsando quaisquer outros sentimentos mundanos que venham a atentar. No momento, somos divindades, entregues aos sabores da ambrosia dos nossos corpos, desejosos, ardentes ao ponto de abrasar a própria água. Mando mensagens por não mais estar perdido, antes sem destino, jogando garrafas ao mar, agora chego ao lugar destinado. Abastado das necessidades do meu coração que antes era deserto, agora é oceano.

Presença


Pensamento, constante carícia que desnuda sentimentos e cria novos níveis ao impossível. Lembranças dos acasos íntimos que nos envolvem numa ânsia sedenta por palavras impregnadas de paixão. Sentimento de solidão constante, que só desaparece quando no primeiro minuto do dia, te vejo. Entrego-me a correnteza, rumando a uma queda d’água onde encontro libertação. Essa presença esta ao redor de tudo em constante mutação. No cheiro do travesseiro, no brilho da manhã, no tocar provocante, no sabor do desejo contínuo do beijo. Extremo sentir, como se quisesse que nossos corpos ocupassem o mesmo lugar no espaço, unidos num só pensar. O tempo segue passando vazio, desprovido de significado, no aguardo do retorno. Apenas distante presença não é 0 bastante para acalentar esse querer devotado. Pensar e sonhar com os lábios, esquecer com os sonhos e acordar ao seu lado. Razão perde lugar a imaginação, pois com ela posso ver cada passo, inventar cada momento e sonhar cada fantasia. Carnaval de todo dia é pensar no que sinto, um baile de máscaras que revela constantemente algo de novo quando vê o brilho dos seus olhos.

Flores das Dunas

A brisa leve das ondas selvagens, com suas caricias salgadas desbotam a manhã, escrava do sol renascido. Observa o eterno beijo da água esmeralda nas pedras do litoral, molhando e de costas retornando como se a provocar. Nela se vão lembranças e embarcações, saudades e possibilidades. Sente a areia aquecer e levantar, pequeninos grãos de felicidade que numa ventania, se postam a dançar acompanhando o ar e seus movimentos em rodopios, subidas e descidas, idas e vindas. Sincroniza o movimento com o passar do tempo, que te leva para os altos e baixos nesse relento, no frio da noite ou calor do sol a pino. Caminhar é fantasia, pois se vê mudar de lugar, mesmo que queira em um só canto ficar, se deixa levar. Incerto desejo, seu querer não tem o porquê, suas vontades de criar, não vão dali sair nem ali ficar. Um dia esta aproxima, noutro distante. Flor sem dono, muda de canto por destino, a ficar de cima das dunas, sorrindo, nunca chegando ou partindo, tocando ou tocada. Observa o caminho incerto, do dia que vira noite e da visita constante das águas do mar.

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