Desencontro


Ventania molhada percorre os arredores da pele sentindo a umidade das lágrimas de chuva. Cada gota de água nua alisa a vontade do toque e o desejo desajeitado. Vontade de deixar tudo desnudo, de alma lavada, com olhos cegos e a boca enxergando cada sede de beijo. Em meio ao noturno desejo, uma vontade de sentir o cheiro do sonho que faz a pele querer ser tocada. Olhos fechados e braços abertos, sentindo cada pedaço do calor natural. O breu esconde o meu e o seu do nosso, não existem partes nem divisões, sem razões nem explicações. Deixa o completo se definir pelo vazio e encontrar um no outro o vício do querer sem controlar ou ver. Um encontro nos desencontros das luzes apagadas, das sombras mal formadas e dos segredos noturnos contados pela carne e desejo. Nobre vocação da boca, essa que devora e cala, que invoca delírio no gemer e entrega segredos que o próprio corpo não descobriu.

Sacrifício

Escolhas difíceis, onde um passo se transforma em eternidade e um movimento em um fim esperado. Desejo de ser celebrado e ao mesmo tempo não poder celebrar, querer ser sem saber onde ficar. Nada de canto ou festa, somente o silêncio que devora o tempo e no segundo seguinte, mais um momento. Viajantes do viver, lentamente caminhando sobre milésimos de instantes, seguindo o mesmo destino sem desvio. O dia se torna importante, a hora é quase sagrado e um instante é a diferença entre o necessário e o tempo perdido, sem tempo para o tempo. Não existe o agora esquecido, mas experiências insatisfeitas, isoladas em percursos que não duram, são somente o suficiente. Tanto passado para um dia aproveitar, tantas chances de viver ignoradas pelo sentimento do dever. O fim não esta próximo, mas é uma inevitável certeza que não se importa com a beleza ou riqueza. O respirar acaba pobre e feio, mas a vida pode ser a mais incrível e memorável, basta saber e entender, errar até aprender a acertar e quando encontrar a verdade final, não temer, apenas reconhecer que é humano, livre para sorrir e se possível um dia, capaz de se entregar. 

Retornando a Tela Branca


O respirar, provocar a vida e fazer dela uma oportunidade, criar do completo vazio uma forma duradoura de felicidade, essa seria da existência a maior das vaidades. De braços abertos, procura escolher na multidão de olhos fechados alguém para segurar, sente o calor do corpo, as formas e firmezas, belas belezas sem maiores certezas, abraçar para nunca largar, desejar querer por pensar ser amar. Encontra um pedaço partido de existência e pensa que ali é o lugar. Não pensa nem sente, não sabe nem quer saber, só quer estar lá onde sozinho não esta até desistir do encaixe, do incomodo e da dúvida, deixando mais uma peça sem lugar. Sai em busca do amor, sem definir qual sentimento seria, sem saber qual destino, o que carinho é e o que se espera do amar. Fecha então os braços, não olha para nada mais, deixa o mundo tocar e sentir o respirar, o sentido do que esta por vir, o que vai chegar. 

Carregado, Amarrado e Desaparecendo

Nuvens marcam passos arrastados entre a lua e o sol, vagando no tempo e dançando até desaparecer, chover e cair, cobrir e acariciar, sumir. Carregadas pelo movimento do dia e a calmaria da noite, se vê finalmente o despertar de um sonho que surgiu, um pensamento que partiu de um alguém que passou amarrando sonhos até então em pedaços e os fez acreditar um dia poderiam ser reais. Os olhos não percebem, o coração não acredita e a verdade apenas aguarda o romper das barreiras um dia levantadas, não como proteção, mas para conter o que é impossível ser reprimido. Um novo amanhecer brilha intenso no limite do horizonte e o calor transborda sobre céu e mar, mesmo assim nada brilha no olhar que um dia fantasiava o real. Desaparecem as vontades, os planos criados, momentos perdidos nunca foram guardados, dias felizes jamais acordados, fios rompidos de uma vida nunca vivida. Escolhas feitas, caminhos trilhados e decididos por onde não se pode mais voltar. Arrastado até o litoral e afogado nas ondas esta o vazio das palavras ditas e das histórias contadas, fábulas para melhor adormecer. O fim da fantasia trás consigo a capacidade de viver o dia, o agora e não o amanhã. O querer um dia nadar, depois andar e correr até voar e aos céus alcançar, renascendo por entre as cinzas das lembranças e as chamas de um novo despertar. 

Irreconhecível


No limite do tempo, onde não existem retas nem curvas e sim o vazio, é possível encontrar a verdade. Entregue as próprias sombras, a imaginação ferina traz cada pedaço perdido pelo passado, leva a enfrentar os erros cometidos e rever o que um dia acreditava acertar. Lentamente deixa de ser o que certo dia era óbvio e vive a mais pura expressão da vida, encarando o real como um homem que para um trem com as mãos. Jogado nesse mundo irreconhecível, vê a liberdade muitas vezes como um castigo e busca sem sucesso encontrar as respostas certas para o que o levou a esse lugar que não é lugar. Essa vida inconstante não tem hora nem momento, não tem sonho ou causa e sim uma finalidade. É agora o que se vive e o depois passa sem saber, até que novamente perdido esta. É nessa perdição que se olha no espelho e procura novamente encontrar um momento diferente, onde algum dia os dias fizeram sentido e não era necessário ser algo ou estar, só é preciso viver.

Interpretando Lágrimas

Um caminho molhado no rosto antes de deixar o gosto salgado na boca e necessita que seja enxugado como se fosse possível dessa forma esquecer a motivação para tal explosão sentimental. Na saudade, sentimos cada segundo como se fosse mais uma gota num copo prestes a transbordar, onde a sede da vontade demora a saciar. Na perda, uma represa, que se quebra devagar no aguardo do momento, sem esperança de que venha algum dia a mudar, se nega de ver e apenas espera a hora de se deixar inundar. Com a felicidade, uma cachoeira, percorrendo um caminho longo até chegar numa maravilhosa surpresa, depois de altos e baixos, uma vista gloriosa do que virá. No amor, lágrima é certeza como chuva, sabe que vem, mas não quando vai chegar, pode até esperar, imaginar o dia, temer o resultado e sempre desejar um dia claro brilhar, mas como toda fantasia, a realidade não sabe esperar. Procura então um abrigo, talvez dessa forma possa escapar, mas não demora para que chegue a hora onde todo o seu mundo esta a lacrimejar, ainda esta chuvendo e não importa quantas vezes o sol um dia veio a radiar, você vai se molhar, pode ser uma gota apenas, nada que com o tempo não venha a passar, mas fugir da tristeza com medo da incerteza é mesmo que não amar por medo de se molhar.

Carta Sem Destino

Prometi escrever quando soubesse o que dizer, as palavras que me fugiam, ainda que distantes, não me deixaram esquecer. Numa noite de sono, senti sua mão acariciar meu rosto novamente, segura minha mão fortemente e me guiar por entre um mar de gente até um lugar para nós dois. Nunca mais te esqueci depois do momento onde o real virou fantasia, como se naquele dia tivesse encontrado o verdadeiro ar da vida, pois antes sufocava na minha própria apatia e a alma virou poesia onde antes nada existia. Desde então comecei a imaginar todo novo dia como uma oportunidade de demonstrar como poderia ser maior do que alegria que o dia que passou me deixou te dar. Sentado aqui nessa mesa, debruçado no papel e caneta não posso esquecer a tristeza que deixei ao te deixar. Imaginávamos viagens fantásticas onde percorríamos montanhas desconhecidas procurando sonhos e imaginações antigas. Queria ter forças para me assegurar que no final desse caminho longo, poderei encontrar sua mão novamente, te levar para onde quer que amanhã vou estar. A verdade é que nunca foi importante apenas o lugar, mas com quem quero dividir o momento de estar, as emoções do sentir, do querer, desejar e quando o momento acabar, olhar nos seus olhos e saber que é sempre ali onde vou me encontrar.
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