Lucida Insanidade


Cabeça vazia como o tempo lá fora, sem saber o momento de chegar e nem de ir embora, sem notar a noite fria e a manhã que não demora. Perdido em palavras divididas ao meio, desconexas do entendimento, a procura do completo, do perfeito, do momento aguardado ao dia inesperado ao fim do desespero. Nada a agradecer, pois o chegar do sol não traz o fim, mas um novo começo e entre as perguntas não respondidas e as verdades escondidas existem apenas questionamentos silenciosos e mentiras ensurdecedoras. Encostado no batente de uma rua sem nome, a espera de algo invisível que possa vir a levar pra longe o incerto e todas as suas variações é possível ver de perto o que é realidade para os que acreditam ser reais.  Loucos são os que não sentem, os que pensam no real como algo imutável e sentem medo do diferente pois parte da loucura é a lucidez e a insanidade, mesmo que momentânea é necessária para cada ser pensante existente. Para o descanso nobre, não é preciso cama pois como cobertor, se usa o carinho um dia recebido, noutro esquecido, mas por um momento eternizado, de travesseiro se faz a lembrança do abraço e de colchão se tem a paixão e cada beijo apaixonado.  

Na Noite de Uma Noite

O medo atrai, deixa o breu fascinante e receoso, trabalhando a imaginação num extremo inesperado. Os olhos fecham, absorvendo cada segundo do nada e preenchendo as ilusões do todo. Cores inexistentes, vivas nos vultos que ultrapassam sombras e tornam reais sonhos e pesadelos. O mundo se torna diferente e a cada pisar em falso, um novo passo é dado como criança, aguardando que o que não se conhece apareça. Idéias aparentam querer ser mais do que são e num ligeiro momento, esta tudo imperfeito, desconexo e desforme. Lembranças iniciam uma valsa de recordações querendo preencher o falso de cada espaço descolorido. No momento da entrega, o respirar aparenta ser tudo que há, o coração é ouvido e cada movimento tem uma luz própria, hipnótica e desforme. Nada mais do que a escuridão que rodeia e um silêncio macio que devora lentamente a calmaria. Insignificância do dia que vai chegar, se fazendo como relento de uma nova manhã do acordar, esquecido fica o tempo e no vento, um carinho beija a pele e apanha o cabelo entre dedos invisíveis. Conta a noite um conto infante, descarrega na consciência toda a tranquilidade desejada e se faz lembrar e esquecer num sonho da madrugada.

Em Braços, Abraços


Alegria, essa fantasia que um dia chega sorridente e em outro se esconde tão bem que não se encontra em lugar algum. Parece que se perde na solidão, na falta de segurar na mão, de deitar sem se preocupar com a ilusão do tempo e seu apressado passo. Pois que chegue então esse abraço tão esperado, me envolva em seus braços e entregue as certeza da natureza feliz já que tudo que tinha de fazer na solidão eu já fiz. Tira-me desse estado singular e me torna mais do que posso ser e além de onde posso chegar. Cada dia me machuca, deixa marcas que percorrem o meu olhar vazio, minhas ações rasas e mecânicas. Deixei a humanidade, sou imagem, um espelho de mim mesmo tateando uma superfície sem fim na busca do real. Minha meia vida, vivida sem saber como viver, vivendo a ver e não poder. Esperança, essa fantasia que chega sem avisar e em outro momento, explode como o sol do amanhecer. Nunca se perde por estar só, apenas espera com a certeza ingênua de existir. Alegre esperança, pois mesmo que faça falta e que cada minuto que passa o passado se cansa, tenho no fim uma certeza maior do que toda ilusão da solidão. Sou amado e sei amar, sou futuro e como todo o mesmo, vou chegar e não mais esperar.

Dia Sem Sol


A luz me aparece fraquejando entre as nuvens que escurecem o céu da manhã. Nasce um dia sem sol, acordando sem abrir os olhos, pedindo mais noite do que dia pode ter. Constante esse querer, que deixa vontade de dominar o tempo e negar o calor. O corpo parece cansar, esfriar, querer mais contato, esperar abraço e lembrar de beijos passados. Quer se envolver no sexo, transbordar de desejo numa mistura onde o que existe entre os dois corpos nus são apenas pingos de chuva e suor da pele. A tarde padece, o sol se esquece e novamente surge a lua, num dia sem dia vem a noite, trazendo sorridente uma vontade envolvente de ter mais o que envolver. Uma harmonia até novo padecer, onde em sonhos se vive e em saudades se deixa levar. Os dias mudam, alguns sem o brilho do sol, noutros falta a magia da lua, nada disso importa agora sem a boca tua. Ela que cala a boca e os sentidos, que envolve e preenche esse querer. Mesmo que a manhã chegue iluminada, não haverá luz sem essa chama que nunca apaga, que domina e arrasta tudo por onde passa e que em mim se faz de graça, dona do meu viver.

Passo a Passo


Num momento de distração qualquer, sem possibilidade de reação é possível sentir desarmar, desmantelar e desiludir. Deixa nua e fria a verdade, crua e simples a vontade de ter mais do que se pode, de querer mais do que se deve. Passa leve, sem notar ou querer ser notado, sem saber ou tentar ser entendido, passa sorrindo e deixando sorriso passageiro. Leva toda carência e atenção, sonho e aversão, leva tudo que pode levar, mas fica na sua passagem a solidão. Não se engana nem se arrepende, olha nos olhos e de repente, sem arrependimento aparente, esquece de todo sentimento eminente e segue em frente esperando ser passageiro ou passagem. Não esquece nada a não ser as lembranças, que perduram maduras pela felicidade dos momentos onde tudo parecia ser estático, natural e certo, imutável. Fica preso entre as chamas e o oceano e se torna imortal no pensamento que vaguei em busca da ventura aparente. Ilusões rapidamente desfeitas pelos atos do real. Passando se vai sem pressa, sem falsa modéstia ou qualquer cerimonial. Passa porque não é ali o seu lugar, não é onde quer chegar e sabe que tem de continuar.

Dia e Noite, Real e Fantasia.


Senta ali sozinha, olhando o horizonte e esperando um novo dia. Nada muito diferente do normal, todo dia parece nascer igual e novamente o sol aparece iluminando o banal. Mais um dia que passa e nada mais parece ser o queria que fosse, um beijo, um carinho o calor do corpo. Tanta limitação se encontra na solidão, indiferente ao tempo ou opinião. Deseja novos desejos, mas procura caminhos diferentes nas mesmas estradas, nos mesmos anseios.

Senta ali sozinha, olhando o horizonte e esperando uma nova noite. Onde não existe pudor, o carnal dita palavras doces, mesmo feitas de fel. Precisa destruir qualquer vestígio desse vício de querer o que faz mal e novamente se deixa levar, esperando diferença no usual. Tantos rostos os sentimentos usam, tantas vontades de saber sem lembrar ou conhecer, escondendo novas descobertas ou insistindo nas tortuosas escolhas erradas.

Senta ali sozinha, olhando nos olhos e esperando uma fantasia. Espera que esteja presente dia após dia, inerente a qualquer mudança, como o sol no amanhecer ou a lua e o anoitecer. Quer aquilo que sempre quis, mas também quer diferente, quer tudo de novo, mas nada novamente. Se perde em sonhos que carregam em si um dia após o outro, insatisfeitos, tenebrosos, indecisos e ilimitados.

Senta ali, mas não sozinha, olha pra quem se permitiu olhar e finalmente esquece a hora, o tempo, a noite e o dia. Tem a verdade que faz esquecer sonho, o real que desfaz fantasia, tudo que queria e não sabia. Deixa-se esquecer das dores, das marcas que dias e noites deixaram no sentir. O tempo é apenas parte da memória do que um dia foi e que nunca foi assim, longe da dor e do fim.

Desnudar


Arranca a certeza da pureza e deixa incerta essa labareda que consome cada canto do pensar. Despe os sentimentos mais insanos, que num simples olhar faz esquecer o respirar, tira o fôlego e a alma, deixa vazia toda outra forma de amar. Num simples passo, muda o mundo inteiro e na ausência, a carência transforma o desejo e faz da solidão lembrança ou desapego. Deixa cair a mortalha que cobre o passado e esconde a verdade por trás do querer num réquiem de adeus. Ela esconde dores, marcas e sabores, vontades de ter e tentar convencer que tudo aquilo era mais do que poderia um dia ser. Desnuda o que sente como que despindo a noite para um banho de estrelas e prazeres numa entrega ao caos da felicidade e as vontades da meia noite. Ações criadas do inesperado, do adiado ou mesmo reações do imaginário, nada disso importa a não ser o resultado. Procura a verdade desmascarada, mas ao encontrar realidade inesperada, pode querer novamente esconder o que poderia não ser mais nada. Vítimas dos impulsos da vida, da madrugada infinita e da vontade de sentir, desnuda desilusão de paixão e aguarda novo amanhecer no horizonte surgir.
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