La Petite Mort


A palma da mão toca a nudez, altera a temperatura e troca carícias entre a pele e as vontades. O suor desliza no desejo e faz transparecer qualquer dúvida do que os corpos buscam um do outro. Não existem segredos no momento onde a descoberta da entrega se encontra no despir e deitar. Olhos travados encaram o momento desnudo, só existe o vento e o tempo envolvendo a carne e a sede. Cada parte pede toque e cada lábio quer sabor diverso em busca de vontades sem pudor. Olhos selvagens de baixo para cima, de cima para baixo, de lado e de frente, como se o olhar oposto fosse a presa e os dedos fossem dentes. Sem saída, a inocência da indecência se faz doar, entregue à malícia e a fome da mão que devora o corpo. Doce sabor do não resistir, deixar o pensar e permitir que a pequena morte seja tudo que existe entre o que se deixa para quem tem permissão. Sem dor nem pudor, sem poder nem pensar, apenas deixando de ser para que seja por completo.

Couraça

Armas pelo chão, mãos que as seguravam estão abertas e sem forças. A armadura faz um estrondo ao cair, não existe mais proteção, nada entre o que esta por vir e o que existe de mais frágil. 

Lágrima escorre pela alma que um dia foi alegre, lágrima de lava que por dentro fere. Esse triste toque que devora em chamas as fantasias de dias normais. Um já foi mãe e o outro pai de filhos que não nasceram e vidas que não viveram. Sonhos que eram planos e agora apenas devaneios de um tempo onde tempo deixou de existir. Não chega a ser fim pois ainda era começo, mas sentiu a dor, o peso do olhar e a vontade de ficar. 

Um fio de sangue percorre o corpo e se derrama pelo campo, nada mais do que mais uma mancha em um chão de conflito. Incapaz de retornar, nada resta a não ser se levantar.

Toda saudade de um começo que encontra o fim onde o meio deveria estar. Seguem então novas lembranças com uma mancha e um aviso de quem um dia se aproximar. Aqui uma dia foi amor, que virou rancor, solidão e agora faz parte da formação desse novo despertar. Não o mesmo, tudo mudou sem sair do lugar, mas não menos, apenas com mais certeza de onde quer chegar. A mão que se estende procura um toque de carinho, mas esta coberta de cicatrizes tornando mais difícil sentir. Sem saber como reagir, o medo latente faz contrair apesar de querer relaxar e arriscar. Deixamos armas e armaduras pelo chão e seguimos sem proteção, arriscando novas marcas para adornar nossa couraça.

Desejo da Entrega


Ao mar, sentindo o movimento da água que busca acompanhar o vento, tanto se tocam que se molda com cada passar apressado de quem roda o mundo enquanto o mundo roda. Nasce então a brisa do mar, a maresia de sabor salgado, filha da imensidão de duas inconstantes que se desejam. Passa por todos os cantos e lados de todos os lugares que consegue alcançar. Levanta espíritos e velas, faz de um simples caminhar um momento de reflexão e transforma vontade em uma novela. Essa entrega que sente o sol e o céu como casados, dividindo o mesmo espaço e moldando as cores um do outro, mudando a forma do ver e pensar. Chega então a noite e a amante do firmamento passando sem que lhe mude nem por um momento só ela muda com o tempo que passa. Lua se desnuda e se faz desejar, se mostra e se nega, mas sempre se faz voltar. Embeleza o infinito estrelado com um brilho pálido de quem deseja, mas aceita seu final na aurora, no nascer do novo que de novo não tem nada, mas que em tudo toca. Existe mais beleza na entrega pois a entrega é o desejo da certeza de se entregar. Certo está o esperado, pois não é o que espera e sim o que se vem a desejar.

Desencontro


Ventania molhada percorre os arredores da pele sentindo a umidade das lágrimas de chuva. Cada gota de água nua alisa a vontade do toque e o desejo desajeitado. Vontade de deixar tudo desnudo, de alma lavada, com olhos cegos e a boca enxergando cada sede de beijo. Em meio ao noturno desejo, uma vontade de sentir o cheiro do sonho que faz a pele querer ser tocada. Olhos fechados e braços abertos, sentindo cada pedaço do calor natural. O breu esconde o meu e o seu do nosso, não existem partes nem divisões, sem razões nem explicações. Deixa o completo se definir pelo vazio e encontrar um no outro o vício do querer sem controlar ou ver. Um encontro nos desencontros das luzes apagadas, das sombras mal formadas e dos segredos noturnos contados pela carne e desejo. Nobre vocação da boca, essa que devora e cala, que invoca delírio no gemer e entrega segredos que o próprio corpo não descobriu.

Sacrifício

Escolhas difíceis, onde um passo se transforma em eternidade e um movimento em um fim esperado. Desejo de ser celebrado e ao mesmo tempo não poder celebrar, querer ser sem saber onde ficar. Nada de canto ou festa, somente o silêncio que devora o tempo e no segundo seguinte, mais um momento. Viajantes do viver, lentamente caminhando sobre milésimos de instantes, seguindo o mesmo destino sem desvio. O dia se torna importante, a hora é quase sagrado e um instante é a diferença entre o necessário e o tempo perdido, sem tempo para o tempo. Não existe o agora esquecido, mas experiências insatisfeitas, isoladas em percursos que não duram, são somente o suficiente. Tanto passado para um dia aproveitar, tantas chances de viver ignoradas pelo sentimento do dever. O fim não esta próximo, mas é uma inevitável certeza que não se importa com a beleza ou riqueza. O respirar acaba pobre e feio, mas a vida pode ser a mais incrível e memorável, basta saber e entender, errar até aprender a acertar e quando encontrar a verdade final, não temer, apenas reconhecer que é humano, livre para sorrir e se possível um dia, capaz de se entregar. 

Retornando a Tela Branca


O respirar, provocar a vida e fazer dela uma oportunidade, criar do completo vazio uma forma duradoura de felicidade, essa seria da existência a maior das vaidades. De braços abertos, procura escolher na multidão de olhos fechados alguém para segurar, sente o calor do corpo, as formas e firmezas, belas belezas sem maiores certezas, abraçar para nunca largar, desejar querer por pensar ser amar. Encontra um pedaço partido de existência e pensa que ali é o lugar. Não pensa nem sente, não sabe nem quer saber, só quer estar lá onde sozinho não esta até desistir do encaixe, do incomodo e da dúvida, deixando mais uma peça sem lugar. Sai em busca do amor, sem definir qual sentimento seria, sem saber qual destino, o que carinho é e o que se espera do amar. Fecha então os braços, não olha para nada mais, deixa o mundo tocar e sentir o respirar, o sentido do que esta por vir, o que vai chegar. 

Carregado, Amarrado e Desaparecendo

Nuvens marcam passos arrastados entre a lua e o sol, vagando no tempo e dançando até desaparecer, chover e cair, cobrir e acariciar, sumir. Carregadas pelo movimento do dia e a calmaria da noite, se vê finalmente o despertar de um sonho que surgiu, um pensamento que partiu de um alguém que passou amarrando sonhos até então em pedaços e os fez acreditar um dia poderiam ser reais. Os olhos não percebem, o coração não acredita e a verdade apenas aguarda o romper das barreiras um dia levantadas, não como proteção, mas para conter o que é impossível ser reprimido. Um novo amanhecer brilha intenso no limite do horizonte e o calor transborda sobre céu e mar, mesmo assim nada brilha no olhar que um dia fantasiava o real. Desaparecem as vontades, os planos criados, momentos perdidos nunca foram guardados, dias felizes jamais acordados, fios rompidos de uma vida nunca vivida. Escolhas feitas, caminhos trilhados e decididos por onde não se pode mais voltar. Arrastado até o litoral e afogado nas ondas esta o vazio das palavras ditas e das histórias contadas, fábulas para melhor adormecer. O fim da fantasia trás consigo a capacidade de viver o dia, o agora e não o amanhã. O querer um dia nadar, depois andar e correr até voar e aos céus alcançar, renascendo por entre as cinzas das lembranças e as chamas de um novo despertar. 
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