Retornando a Tela Branca


O respirar, provocar a vida e fazer dela uma oportunidade, criar do completo vazio uma forma duradoura de felicidade, essa seria da existência a maior das vaidades. De braços abertos, procura escolher na multidão de olhos fechados alguém para segurar, sente o calor do corpo, as formas e firmezas, belas belezas sem maiores certezas, abraçar para nunca largar, desejar querer por pensar ser amar. Encontra um pedaço partido de existência e pensa que ali é o lugar. Não pensa nem sente, não sabe nem quer saber, só quer estar lá onde sozinho não esta até desistir do encaixe, do incomodo e da dúvida, deixando mais uma peça sem lugar. Sai em busca do amor, sem definir qual sentimento seria, sem saber qual destino, o que carinho é e o que se espera do amar. Fecha então os braços, não olha para nada mais, deixa o mundo tocar e sentir o respirar, o sentido do que esta por vir, o que vai chegar. 

Carregado, Amarrado e Desaparecendo

Nuvens marcam passos arrastados entre a lua e o sol, vagando no tempo e dançando até desaparecer, chover e cair, cobrir e acariciar, sumir. Carregadas pelo movimento do dia e a calmaria da noite, se vê finalmente o despertar de um sonho que surgiu, um pensamento que partiu de um alguém que passou amarrando sonhos até então em pedaços e os fez acreditar um dia poderiam ser reais. Os olhos não percebem, o coração não acredita e a verdade apenas aguarda o romper das barreiras um dia levantadas, não como proteção, mas para conter o que é impossível ser reprimido. Um novo amanhecer brilha intenso no limite do horizonte e o calor transborda sobre céu e mar, mesmo assim nada brilha no olhar que um dia fantasiava o real. Desaparecem as vontades, os planos criados, momentos perdidos nunca foram guardados, dias felizes jamais acordados, fios rompidos de uma vida nunca vivida. Escolhas feitas, caminhos trilhados e decididos por onde não se pode mais voltar. Arrastado até o litoral e afogado nas ondas esta o vazio das palavras ditas e das histórias contadas, fábulas para melhor adormecer. O fim da fantasia trás consigo a capacidade de viver o dia, o agora e não o amanhã. O querer um dia nadar, depois andar e correr até voar e aos céus alcançar, renascendo por entre as cinzas das lembranças e as chamas de um novo despertar. 

Irreconhecível


No limite do tempo, onde não existem retas nem curvas e sim o vazio, é possível encontrar a verdade. Entregue as próprias sombras, a imaginação ferina traz cada pedaço perdido pelo passado, leva a enfrentar os erros cometidos e rever o que um dia acreditava acertar. Lentamente deixa de ser o que certo dia era óbvio e vive a mais pura expressão da vida, encarando o real como um homem que para um trem com as mãos. Jogado nesse mundo irreconhecível, vê a liberdade muitas vezes como um castigo e busca sem sucesso encontrar as respostas certas para o que o levou a esse lugar que não é lugar. Essa vida inconstante não tem hora nem momento, não tem sonho ou causa e sim uma finalidade. É agora o que se vive e o depois passa sem saber, até que novamente perdido esta. É nessa perdição que se olha no espelho e procura novamente encontrar um momento diferente, onde algum dia os dias fizeram sentido e não era necessário ser algo ou estar, só é preciso viver.

Interpretando Lágrimas

Um caminho molhado no rosto antes de deixar o gosto salgado na boca e necessita que seja enxugado como se fosse possível dessa forma esquecer a motivação para tal explosão sentimental. Na saudade, sentimos cada segundo como se fosse mais uma gota num copo prestes a transbordar, onde a sede da vontade demora a saciar. Na perda, uma represa, que se quebra devagar no aguardo do momento, sem esperança de que venha algum dia a mudar, se nega de ver e apenas espera a hora de se deixar inundar. Com a felicidade, uma cachoeira, percorrendo um caminho longo até chegar numa maravilhosa surpresa, depois de altos e baixos, uma vista gloriosa do que virá. No amor, lágrima é certeza como chuva, sabe que vem, mas não quando vai chegar, pode até esperar, imaginar o dia, temer o resultado e sempre desejar um dia claro brilhar, mas como toda fantasia, a realidade não sabe esperar. Procura então um abrigo, talvez dessa forma possa escapar, mas não demora para que chegue a hora onde todo o seu mundo esta a lacrimejar, ainda esta chuvendo e não importa quantas vezes o sol um dia veio a radiar, você vai se molhar, pode ser uma gota apenas, nada que com o tempo não venha a passar, mas fugir da tristeza com medo da incerteza é mesmo que não amar por medo de se molhar.

Carta Sem Destino

Prometi escrever quando soubesse o que dizer, as palavras que me fugiam, ainda que distantes, não me deixaram esquecer. Numa noite de sono, senti sua mão acariciar meu rosto novamente, segura minha mão fortemente e me guiar por entre um mar de gente até um lugar para nós dois. Nunca mais te esqueci depois do momento onde o real virou fantasia, como se naquele dia tivesse encontrado o verdadeiro ar da vida, pois antes sufocava na minha própria apatia e a alma virou poesia onde antes nada existia. Desde então comecei a imaginar todo novo dia como uma oportunidade de demonstrar como poderia ser maior do que alegria que o dia que passou me deixou te dar. Sentado aqui nessa mesa, debruçado no papel e caneta não posso esquecer a tristeza que deixei ao te deixar. Imaginávamos viagens fantásticas onde percorríamos montanhas desconhecidas procurando sonhos e imaginações antigas. Queria ter forças para me assegurar que no final desse caminho longo, poderei encontrar sua mão novamente, te levar para onde quer que amanhã vou estar. A verdade é que nunca foi importante apenas o lugar, mas com quem quero dividir o momento de estar, as emoções do sentir, do querer, desejar e quando o momento acabar, olhar nos seus olhos e saber que é sempre ali onde vou me encontrar.

Deficiência Sentimental

Fome de amar, sede de sentir, vontade de correr sem um lugar determinado, um destino traçado ou um plano definido. Caminhando fora da linha, sentindo o peso de cada passo, o vento forte vindo na contra-mão dos abraços esperançosos. As mãos tateiam como se cego fosse, procurando as definições do mundo que o cerca, querendo fazer sentindo de tudo aquilo que os olhos não conseguem admirar. Entrega-se a existência da vontade sem entender a motivação e tropeça em cada degrau estendendo as mãos a solidão. Difícil entender a sí mesmo quando não consegue se enxergar, acha necessário imaginar e ter a esperança de que talvez seja aquele o lugar onde deve se apoiar e vê a mão estendida ao seu lado, tentando ajudar. Quer chegar onde sempre achou que deveria estar e sem perceber a razão do querer se perde ao alcançar. O prêmio se torna derrota, o caminho que era uma conquista vira perda de tempo e o troféu que deveria ser vitória, se transforma em arrependimento. As luzes são acesas, a estrada é iluminada e ao contemplar toda a jornada, descobre que não saiu do lugar, então olha para frente, a procura de um novo caminho e antes de tudo recomeçar, apaga as luzes e estende as mãos a procurar.

Contador de Histórias


O toque dos dedos na página virada que atende a pedidos e sonhos onde não existe apenas uma frase, mas uma vida inteira que faz e desfaz com pela simples vontade. Cada momento dependendo de tudo, do beijo traido, da paixão reprimida, do grande amor perdido no último dia de vida. Vivendo cada momento vive o contador de histórias, que com dedos nervosos e palavras esperançosas aguarda a salvação. Envolve-se com a trama e sem razão, tem medo do "sim" e do "não". Deseja alí o repouso da realidade, onde a fuga do normal fosse mais do que necessidade, uma motivação para viver. Sente a dor da despedida, o sorriso do reencontro e quer reler para novamente poder sentir o mesmo pesar, a mesma alegria. A história se faz deliciosamente errática, numa constante descontrução do ser e querer que engrandece as verdades encontradas nas mentiras contadas e nas fábulas imaginadas. Em cada luar é possível encontrar um desses sonhadores, que em busca do destino sente cada momento do que é viver num dia que era uma vez.
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