Sombras


A luz não passa, não tem como existir naquele ponto, esta preenchido com o presente e constante pensamento revirado. Nem esperado estava o momento, e ele chega trazendo o vento que a muito não soprava. Nele estão sons de risadas, palavras ditas e segredos que sorriem. Existiu um dia ali algo diferente, como se fosse para sempre e nem um pouco mais durou. Nunca esquecido, mas penosamente lembrado, com tudo que um dia foi partindo e que agora o lugar foi ocupado. Somos parte do passado e tão constantemente esperados quanto presente. Quanto mais nos forçamos a olhar para frente, mais queremos olhar além de nossas costas e relembrar, mas o hoje não pode esperar. Sorrisos ainda rodeiam a vida, mas as sombras que deixam não são simplesmente escuridão, mas foram olhadas e vividas, dadas e recebidas, recheadas de momentos infinitos num segundo dividido de um passado sem sentido que sente cada suspiro. Onde só existe escuridão, deixamos visíveis as marcas deixadas pelo adeus sem razão de ser, ou o afastar sem motivos, ou bem motivados. Cercados de razões, seguimos adiante por saber que mesmo em frente, num dia não muito longe, novamente estaremos olhando as sombras desbotadas, recitando histórias já contadas e pensando em tudo que agora se tornou areia e mais nada.

Outro Eu

Não tivesse feito erros, fossem mais acertos meus, teria onde deitar a cabeça, descansada de pesar tanto em tentar se arrepender. Nada lembra mais tanta certeza, esquecida esta a natureza em desperdiçar cada escolha nas incertezas do desejar. Queria por querer mudar, sabia por saber sonhar e nada mais se deixou ser o mesmo. Mudando e modelando os dias que me foram entregues, esqueço as noites que me seguem por novamente ter o sol do amanhecer, disposto a correr o risco de riscar o céu azul. Desejaria ser outro eu que carregasse essas pequenas explosões, despedaçando essas fantasias ancoradas no nascer de todos os dias. Faria então nova linha a ser trilhada, diferente daquela arruinada por tantas escolhas diferentes de quando se tem ou pensa. Desfeito de meu eu, teria então novos cansaços, vividos e mal trilhados, mas não os mesmo que antes me atormentaram. Cometeria novos erros, ilegalidades imorais, tolices da juventude, perdidas sem razões e incontroladas pelas experiências da vida. Desperdiçada pela nova partida e a subseqüente jornada seguinte estão as motivações de um novo ser, que não sabe realmente escolher nem como não mais esperar. Decidir pela incerteza e pedir para voltar, caso erre, que venha outro em meu lugar.

Reflexos


Apenas o que é visto, a ilusão da certeza revê incerta se o que ali esta presente é realmente a verdade empírica. Observa movimentos repetidos como sempre foram e os segue, esperando uma mudança, uma nova verdade, algo que altere o fato. Mesmo que fosse mudado, a luz não deixa esconder, permitido tal feito, não é de direito permitir incerteza de si. Sendo assim não se vê o que não veio por acaso. Nesse meio recheado de fim, um final determinado não é nada do passado, mas indica ser aqui o seu destino. Refletindo entre sonhos e realidades, um meio termo honesto e direto posiciona a mente para o que de certo é a decisão final. Observa a imagem que observa, na espera incerta de algo novo, diferenças, sutilezas, escolhas e aceitações. Dominado finalmente pelas emoções somos parciais a imparcialidade dos sentimentos que transbordam de escolhas. O reflexo não mente e nele encontramos sem realmente procurar uma razão inexata. Buscar no nada o motivo, a direção, o sentido e a motivação. Leva de encontro ao espelho as questões inerentes da incerteza, na procura de mudanças impossíveis de se ver, mas constantes na alma. Não é possível enxergar ou negar, só se pode sentir e se entregar o que refletimos no olhar que nos reflete.

Onde Caem as Lágrimas

Se vão pedaços de alma, caídas a caminho da correnteza que leva mais saudade do que tristeza. Sem que veja, se fecha como o abrochar, esquece da felicidade e que ela um dia pode chegar. Certeza de nada tem os olhos, cheios de um mar intenso que transborda tanto sentimento e desaprende o que é retornar. Nada mais importa num sorriso que demora a chegar, pois só existe a salgada distância e a demora em conseguir alcançar. Entrega-se aos braços desse sentimento dourado que de tão belo, faz falta por sempre ser sincero, único e honesto, valioso como somente o maior tesouro poderia ser. Fugimos mesmo tendo tanto apreço, pois o desejo é muito maior do que o receio da vontade. Erramos, esquecemos e cedemos, deixamos que o tempo nos leve distante, sem saber ao certo onde. Assim chega o choro, encontrado no arrependimento, derramado aos pés do penitente. Paga-se com gotas ardentes cada passo dado, distante do passado, separado do que quer voltar. Os olhos mareados procuram então o significado de cada escolha, apesar de não entender inteiramente o motivo de trilhar. Enxuga-se a face molhada, aceita onde caem as lágrimas e o porque nunca mais devem voltar.

Sussurros Contra o Vento


As perguntas se acumulam diante dos dias que passam. Dúvidas correspondem as incertezas do próprio respirar. Temos de escolher entre o caminho que trilhamos e aquele que desconhecemos. Nada do que se sabe, realmente se aprende, apenas vemos e quando passa é esquecido de repente. Então não se sabe exatamente o que é saber, a vida guia as ações sem que o resultado seja direto e compreensivo. Entendimento vazio esse que não entrega respostas a tantos questionamentos. Caso nada seja feito, seremos eternos sussurros contra o vento, alimentando o ar com palavras inexpressivas. Meras fantasias as usadas no dia após dia, mutáveis sentimentos alteram intenções e o que achava ser verdade, nada mais é do que a passagem do tempo. Precisa-se de gritos, de ir até onde seja possível ser ouvido e não mais falar, mas soltar todo potencial da voz num chamar para o que se quer viver. Olhar nos olhos do desconhecido e saber que nada mais é do que o futuro natural, aquilo que buscamos, lutamos e queremos. Temos todos os motivos de mudar o que quisermos, sentir o que for possível ser sentido, banhar nosso tempo aqui em erros e saber reconhecer os acertos, mesmo que poucos sejam.

Menina da Montanha

Numa montanha, muito além do horizonte existia uma casa, nela havia uma menina, que perdeu o pai que tinha e a mãe que não durou. Sem ninguém em casa, triste ela sorria, sem saber direito o que era, ela amava. Todo dia caminhava pela manhã, toda noite ela nadava com as estrelas, tudo que conhecia era a solidão e tudo que comia para ela, tinha gosto de cereja. Aprendeu a pescar com o pai, com a mãe aprendeu perdão, com a vida aprendeu sozinha que tudo passa, mas lembrança fica. Sentada comendo uma maça, com gosto de cereja na boca, sentiu o vento soprar, levando do varal uma peça de roupa. Mesmo com toda pressa, a moça não conseguiu alcançar. Perdeu seu vestido azul, feito de fios de céu, pois da montanha nunca tinha saído e não sairia, nem por isso. Voltou a desenhar nuvens e conversar com as folhas da árvore, até que vento bateu novamente levando nova vaidade. Agora era seu vestido dourado, feito de raios de sol, não poderia ter sonhado em perder algo tão caro ao seu coração. E mesmo no desespero, novamente por inteiro, perdeu a corrida. Mesmo com aperto no coração, e lágrima no rosto, a menina novamente não descia. Foi até o varal e prendeu tudo que tinha, dali nada saia, pensou “nem o vento tira”. Apesar de segura, quando sentia ventania, corria para suas roupas, com medo de perder o que tinha. Eis então que noite veio e vento traiçoeiro via que a menina que sorria triste, agora na cama dormia. Aproximou-se do varal e soprou tudo que tinha, lençol estrelado, vestido de prata da lua, todo enxoval flutuava na noite nua. Quando acordada, viu que mais nada tinha, gritou com o vento e sua grosseria, enquanto isso o vento ria. Foi então que decidida, pegou o último vestido que tinha, feito de flores do campo e bordado de fantasia. Começou a descer a montanha, na trilha que quase não existia, a cada passo que dava, novo vestido ela via. Chegando no pé da montanha, viu seu vestido de fios de céu, adornando uma cabana ao pé da montanha. Um menino saiu com um sorriso, sem motivo nem juízo, olhou para a menina fantasiada de fantasias e da cabana tirou o vestido. Olhou com olhar ferido, desejoso e carinhoso o que nunca tinha visto. E o vento, então sorriu e então perguntou para o destino “Se era essa a sua intenção, por que então tudo isso? Não bastava deixar curioso ou deixar os dois de sobreaviso?”. O destino sem precisar, riu das palavras ditas e respondeu ao querido vento “Não seria destino sem escolha, não faria sentido, o amor esta no que vê e não no que é ouvido”. E assim seguiu destino, sem razão de assim ser, procurando sem motivos novos caminhos para tecer.

Sereia dos Sonhos

Entre tantos outros sons, o seu consegue ser o mais atroador, devastando minha audição e me fazendo perder o equilíbrio. Desejo mais do que isso e é esse querer que me desconcentra, perco as pernas que me sustentam só de lembrar. Sereia dos meus pensamentos, metade mulher, metade sonhos, completa de todo imaginar. Cânticos mudos, rimados de ventanias, sorrisos e perfumes, risos de alegria. Sibilando sobre o mar onírico do descanso tardio, deixa carícias que causam ondas e nelas me deixo levar entregue a correnteza. Solto as amarras e a deriva, flutuo em pensamentos irreais e vontades tentadoras. Não existem espaços não marcados por sons que de tão presentes, ecoam na mente, cantarolando noites não dormidas e promessas não cumpridas. Quando chego no final desse litoral utópico, encontro ali seu rosto, sorrindo como um paraíso crescente. Esqueço tudo ao meu redor e me concentro apenas no vermelho dos seus lábios e o chamado do seu olhar. Canções inaudíveis me atraem de encontro as rochas, desavisado dos perigos da costa, viro náufrago nessa ilha. Vivo então dos encantos, canções da mulher inatingível, pois sempre que me aproximo mais distante ela esta, mas dos meus sonhos nunca sairá.

Cumplicidade

Cada pensamento é cumplice das verdades, estejam elas escondidas ou aparentes nas palavras. Nossa inocência não conhece restrições, não tenta enteder motivos, apenas move adiante com ações irresponsáveis. Não existe uma perfeição de ações, atuações cronometradas ou visões futuras. Impossível parar as banalidades que, sem o menor esforço, conseguem encontrar caminhos inesperados e transformar completamente as banalidades do mundo em algo improvável. Somos unidos pela singularidade da vida e sua constância. Nossa existência não é apenas um fato decidido ou um acidente, somos parte da histótia, independente de sermos louvados num programa de televisão ou aparecendo em capas de jornal e revista. Cumplices da vida, do seu começo, meio e fim. Constantes, mesmo reconhecendo o destino final, a última luz é a única para a qual estamos caminhando. Sendo assim, temos nossos sentimentos, nosso senso comum de vida e esperança. Conseguimos criar novos mundos, novas vidas, somos capazes de desenvolver e recriar sonhos. Ao olhar para o futuro, espero que tenhamos a certeza de ver com olhares cheios de expectativas uma unificação diante do melhoramento universal e não mais a individualização da vida.

Olhos da Meia-noite

Lacrimejando diante das sombras que rodeiam o quarto, observando o tempo que se aproxima solitário. Olhar perdido no vazio ao lado a espera de um sonho ainda não completo. Em rostos passageiros, procuro uma forma futura, escondida na penumbra incerta de fios ainda não fiados. Traços desenhados fora do traçado, movimentando o viver um pouco para o lado inesperado. Então chega a meia-noite, toda magia tremula no ápice da lua, cada estrela brilha nua, mostrando o caminho para quem de longe não sabe onde chegar. Esse mar que nos rodeia, brilha sem certeza em resposta a cidade que lhe observa. Pensamento soprados ao vento, não ouve lamentos, somente passa ao lado. Não é consolo, apenas a presença da hora, determinando que no sentido do caminho, nada é apenas aquilo que parece ser. Já é o fim de mais uma meia-noite, o amanhã é hoje e um novo dia chega para novamente passar. Dias bons nunca ficam um pouco mais, nem um minuto, não esperam para serem apreciados até que partem dos braços dos abraços. Podem até ser sonhados, lembrados ou retratados, mas nunca os mesmos pois foram mudados. Que seja então esse o destino do coração a ser escolhido, e deixe novamente a hora passar, para que chegue o que é certo de chegar.

Impulso

Incita as vontades discretas o suficiente e excessivamente sob medida, saboreando palavras que se derramam pelo corpo como pingos de chuva. A constância dos pensamentos desejosos acrescenta ainda mais desejos e maiores desconsertos. Determinado a despir essas dificuldades presentes até que desapareçam nas suas insignificâncias e ao final, provar da entrega entre corpos quentes, escorregadios ao sentir o suor de beijos ofegantes e da respiração profunda e constante. Essa força que move sonhos e permite expectativas cegas a incerteza da relação, deixa a amostra o selvagem e natural. Incita lascivos pensamentos, guardados em segredo, distante de olhos famintos, até se deparar com a entrega. Desfaz o nó que prende, restringindo movimentos e limitando a liberdade, trazendo a cada instante um sentimento de saudade. Sede de estímulo, de onde tem origem as palavras perfumadas que transformam essa névoa em claridade constante. Deixa que seja e despeja esse querer que lateja entre suspiros prazerosos. Para encontrar a certeza é preciso provar do pensamento, mesmo que longe não esquecendo, mas constantemente querendo sentir. A completude se encontra na virtude da sinceridade, pois mesmo a luxuria é prova da verdade.

Desfazendo

Agora não importa mais a demora, o dia passou da hora e assim se foi sem tempo. Esperar, agora não tenho pressa, respirar fundo pois o que vier, que venha com vontade de ficar. Deixa que respire, que se vire para trás e traga paz. Essa entrega não dá mais para ser certa, será preciso respirar um pouco e acalmar. Tudo um dia acaba, mas o sentido do término é o recomeço, voltamos a origem inexplicável e desejamos nada mais do que permanecer intáctos as alterações que nos rodeiam. Essa improvável relação do coração com a vida não traz mais do que feridas e cicatrizes espalhadas numa sequência de depósitos de lágrimas. Mais um novo caminho traçado, inesperado, mas não surpreendente. Novas fotos do passado que passa novamente, como acaso de uma chuva que logo pelo sol é esquecida de repente. Venha então você minha luz, sem saber qual caminho tomar, não espero tanto nem tão pouco, mas quero. Entrelaçado entre os dedos que desfazem o presente que tanto pesa, encontro sorriso que encanta e que tanto quer essas incertezas. Tão cansado dessa dança de relacionamentos, um dia feliz, noutro sofrendo. Então espero o beijo, que se despede do outro, para saber que agora, começo tudo de novo.
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