Saudosa Saudade


O céu não se decide numa meia noite tão triste. Não sabe se chora, demora, nem sabe se fica ou vai embora. Observa então um sonho cristalizado, de encher as mãos de rosto e cabelo, de sentir cheiro e o tocar. Anseio que faz de brinquedo a rasão, tão doloroso quanto uma pena, tão violento como um infante, envolve os dias como amante e faz pensamento dançar. Lacrimoso, se esparrama em gozo por entre calhas e telhas, decidido em banhar sentimentos que escapam e retornam sem aviso qualquer, apenas desejosos do sentir. Relembra beijo, momento sem jeito, a chuva que caia, a mão que subia, o calor que sentia e a vontade que tinha. Passado e sua ladainha, sempre esquece de esquecer aquilo tudo que possuía. Falta faz a solidão, pois faz espera se tornar paixão e num instante vira romance. Demora incessante do amanhecer, ainda que venha encharcado da noite, que se derrame com azul e dourado por sobre a penumbra. Cores brotam por entre condenadas sombras como segredos discretos vindo atona. Ergue-se a manhã de sol e nuvens e faz jocosamente da alma um joguete novamente, gira o saudoso a um outro lembrar, para que sinta falta de um novo luar.

Além do Horizonte, Um Sonho


Lanço um olhar perdido para um horizonte distante, sem compreender o verdadeiro significado do que esta perto e longe. Desejo alcançar seus braços, fixar meu olhar e te levar para onde possa te deitar. Quero sentir a sua voz enquanto fala próximo ao meu corpo, debruçada por sobre a cama e pele. Esse querer libidinoso transparece a cada evocação do seu nome, momento de fome, vontade que consome. Chama maldita, bem querida e destrutiva, deixa que me derreta, que seja esse o fim de minhas palavras. Silêncio até que seja encontrado momento equilibrado entre vontade de ser e desejo de ter. Perder a vontade para em segundos té-la novamente, entregando cada momento indiferente para os tempos que passados. Façamos parte das chamas do Sol, incendiando o espaço. Deixe que nos leve o momento para qualquer lugar, onde o único brilho vem dos corpos, desnudos e entrelaçados, indefinivelmente dois. Meu olhar vagante, que sonha errante com o horizonte a se aproximar, segue distante o caminho solitário entre o céu e o mar.

Último Uivo da Noite

Num passo desatento, sem ordem nem pensamento, passa o tempo passado, pairando ao lado e partindo para qualquer ponto além. Segue solitário até não estar, sem saber exatamente a razão desse destino selado. Eis que se ergue como exemplo esquecido um esforço extraordinário do que se achava extinto. Um último uivo, urrando e usurpando o luar, iluminando breu e unindo o que é seu com o seu eu. Fazendo esforço, faz do desgosto lar e mesmo lá se força a sonhar, falando com todas as fases desse luar, sentindo falta do que se faz faltar. Lenda da noite, soturna e indiferente, assim como gente que se faz persistente num exemplo de perdição em lugar inexistente. Preenche de ensinamentos impuros e indecentes, de exemplos da pele e de quereres ardosos, de saudade saudosa e saliva. Desejo, que se faz de beijo, finge ser apreço e num momento de arquejo se desfaz. Se acaba na cama, com uma vontade mundana de querer mais. Quer pele para queimar, corpo para deslizar, sabor para sentir e saudade para sonhar. Então retorna desatento, em palavras retidas e suspiros no canto do rosto, cantando um gosto, querendo um gozo.

Causador de Ondas


Nada se entende, pois não é necessário o completo entendimento e sim um reconhecimento do que é. Seres impossíveis, em constante movimento, evolução e criação, procurando nesse meio uma razão. Acha ter encontrado num livro, numa citação ou veio de um sonho, no meio da noite, num barzinho, uma canção. Imprevistos movimentos são esses dos causadores de ondas, que se acreditam sozinhos a jogar pedras numa lagoa, criando ideais de ação e reação. Conselheiros cegos, que se fazem certos sem levar em conta a maior das variáveis, o sentimento. É assim que se perde o ideal, o plano que era tão certo acaba se tornando irracional e então se pode observar a própria desconstrução. Despreparados para situações de delírio puro, êxtase em descontrole das ações. Passa-se a vida inteira observando a lagoa na espera das ondas ou da as costas e não olha para o que vai acontecer. Então é quando se apanha uma pedra do chão que entendemos quem é o mais sábio, por ser aquele que sabe sua  motivação, a verdadeira intenção. Medir quanta força deverá fazer, os ângulos a se pensar e as consequências de tudo isso que se pensou para que possa acontecer, mesmo  que seja possível planejar, não significa que vai acontecer. O importante é tentar, mesmo sem querer, causar ondas como o mar ou simplesmente esquecer. Só se entende a vida e a si mesmo vivendo, pois não se esta sozinho nessa lagoa, não é o único a mover as águas. O que faz o entendimento é a motivação de viver, a razão para continuar e tentar, apenas parar quando não tiver mais pedras para jogar.

Impossibilidades


Posso sentir teu suspiro vindo de encontro ao meu ouvido, tornando impossível negar esse meu vício teu. Não sei o que faço com as mãos, que não encontram onde repousar enquanto esperam tua pele e o calor que ela sugere. Faz-me teu, pois inexiste mundo esse que possa acolher a possibilidade de perder o que já me fizestes ganhar. Perder-me nos lábios teus e cansar a boca, querer mais de mim para ter mais de ti. Essa distância me transporta aos desejos de minha alma e coração e quando perto de ti estiver, nada mais irei pensar, terei apenas a vontade de estar no momento, no lugar, desperto e entregue. Fiz-te um pedestal e te coloquei com orgulho no lugar de mais alto apreço e mesmo que possa te alcançar, alí ficará. Como é fácil se perder logo depois de entender tudo o que precisava ser compreendido. O mesmo se faz verdade em esquecer o que nunca deve ser deixado. Depois de tudo, não se pode silenciar o mundo, só se pode tentar fazer o possível para entender suas idas e vindas ou se entregar a essa loucura sideral que nos guia dia após dia. Sem tua presença, nada disso seria possível, pois num mar de impossibilidades, encontrei o que queria, para toda a vida.

Lindo e Assustador

Torna-se algo próximo de um louco, caminhando noites sem destino, chamando atenção das luzes no céu sem entender exatamente o que é fazer sentido. Isolado num mundo dividido em dois, nada passa pela mente que não seja esquecido imediatamente para dar lugar a tudo aquilo que é lindo e assustador. Valores mudam, pessoas não são mais as mesmas, o que era importante, deixa de ser necessário e passa a ser incerto. O que era constante, não é nada mais do que discreto desconforto, deixa um certo desgosto, uma vontade de despedida. O mundo se recheia de novas fantasias, de palavras por muito tempo não ditas e futuros, mesmo que incertos, previstos como as certezas de uma mentira, inventadas, mas degustadas a cada palavra proferida. Poetas de palavras desconhecidas, de idéias sem nexo e recheadas de irreal, mesmo sem gostar da lírica, torna-se rima e faz da dúvida uma melodia. Inconsequências da mudança e do destino no qual se encontra, não sabe exatamente o que fazer ou dizer, pois o querer grita tão alto que mais nada se escuta, tão grande que mais nada se vê. Tão lindo é a certeza do sentimento, tão assustador é seu alento, como loucos rodando uma noite vazia, sem saber o que é real e o que é fantasia.

Criador de Sonhos

Resistindo a um mundo cheio de fantasmas e fantasias, o criador de sonhos esquece o real e se faz parte da própria criação. Ao que aparenta, sua falta de experiência com o mundo que se segue faz com que esqueça das aparências e atenda apenas aos instintos mais básicos e prazerosos. Logo depois, se sente pesado pelos julgamentos externos daqueles que o rodeiam. Passa a acreditar que ser sonhador é imoral num mundo amoral como é a realidade e aqueles que se dizem reais. O que existe agora é um frio que rodeia o fiador de teias etéricas, congelando a delicada arte e quebrando no vento que passa. Nada mais tem a mesma graça, pois ao que tudo indica, para o real a fantasia já teve seu dia e agora pode ser esquecida. Nada mais se fala sobre a lua ou se canta com alegria. Não se sofre mais por estar longe ou porque a vida foi perdida. O pensamento se entrega a realidade vazia e faz do sonhador um pária, cheio de idéias sem lucro e sem valor. A criação não faz mais parte de quem criava e a canção silenciada, da lugar a outra sem palavra, sem rima ou emoção. A palavra esta perdida sem pai nem mãe, não sabe onde se colocar nem mais como encantar, cada vez mais se deixa levar para longe da imaginação, para longe do criador e a criação.
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