Quero-te ler uma história que começou numa noite:

Enquanto a fumaça paira pelas luzes aparecendo e desaparecendo a cada segundo iluminado e outro soturno, aguardo o momento preciso e a trajetória determinada pela visão aguçada de um jogo de bilhar, me surge uma idéia que até então não havia ocorrido pelo acaso de fatos e momentos tidos como importantes e logo em seguida, inócuos até que por momentânea sinapse, se desenvolveram em algo de grande importância. Completamente sem qualquer motivo aparente além do desejar da presença, procuro qualquer meio de contato na busca de sua companhia. Atordoado com o possível fato de não poder locomover-se ao recinto, me prontifico inteiramente a sua disposição. Observo logo em seguida a lua e a vejo cheia de esperanças assim como meu sorriso sem razão e caminhar saltitante.

Caminho até o veículo estacionado e observo o caminhar lento e possessivo de um gato pardo encima de uma estrutura. Por meros segundo, possuo a confiança de tal felino quando me esgueiro pelas ruas e sigo meu caminho. Desapercebidas, pessoas caminham pelas calçadas sem a menor idéia que dentro daquele automóvel, naquele exato segundo, existe alguém feliz. O ritmo do som e o bater do pé no assoalho do carro procuram ao mesmo tempo distrair tão nervoso motorista.

Desde o momento em que o movimento contínuo de rodas me levava de encontro a tal porta até o instante seguinte no qual me encontro a frente da mesma, não poderia imaginar tamanho aumento na pressão sanguínea que percorre meu miocárdio. Numa respiração, aperto por menos de segundo a campainha e me afasto. Os passos, primeiro em assoalho e logo em seguida silenciosos, aproximavam-se a minha frente, obedecendo o chamado melódico. Novamente os passos surgem, agora parados e acompanhados de uma sombra, vista pela fresta baixa da porta. A fechadura aparenta demorar séculos para ser aberta. O trinco se retorce e acompanha um rangido e uma voz: - Oi!

Uma Gota D'alma

Nesse canto vazio, aprendo quem sou. Palavras soltas, rodeadas de princípios sem meio ou fim. Vida comentada e dissecada entre linhas imaginadas e dedos agitados pelas emoções diárias. Se não fossem algumas mágoas, tudo seria descrito como alegres passagens da vida, mas como existem, quem sou eu para negá-las. Devo me esconder num imaginário estático de alegria falsa? Cada lágrima tem sentido em ser derramada. Sai direto da alma, pois o que vê não nega e o que sente, transborda. E toda solidão tem seu destino. Se nunca estivesse sozinho, não saberia o que é amor, sua cor e valor, essa prosa indescrita, indiscreta e desmedida, mas principalmente e com toda a força das palavras, sagrada e milagrosa.

No Caminho, Um Beijo e Uma Vida

No caminho, sozinho, senti um espinho. Retirei lentamente apesar da dor e continuei. Mais adiante, encontrei uma flor. Senti o seu perfume sedutor e segui. Pouco tempo depois, encontrei um lago. Banhei-me, bebi de sua água clara e fui adiante. Vi então moça bonita caminhando com uma cesta de frutas. Ofereceu-me uma maçã e um beijo. Provei dos dois e segui meu rumo. Pouco depois encontro um velho, de bengala na mão e uma carroça quebrada. Ofereço ajuda e ele não fala nada, conserto a carroça e nada me diz. Estendo a mão e nem um gesto. Sigo então minha trilha por ser melhor assim. Quando estou seguindo o caminho, o velho me puxa e diz:

- Essa carroça é sua meu jovem, pegue e volte por onde veio ligeiro. Alcance a moça com frutas e beijos ela é sua também. Construa uma casa ao lado do lago de banho e plante as sementes, colha a flor de perfume sedutor e entregue a ela como quem pede perdão e não deixe que nela entre espinho no pé, ela não merece dor.

- Por que diz isso o senhor?

- Fiz esse caminho. Já deixei cair espinho, plantei uma flor, vi chuva encher lagoa e mulher bonita por mim já passou, não quis seguir em frente e nem posso mais voltar e tudo que você vê um dia pode mudar. Faça uma vida jovem porque um dia a carroça quebra e esperando você vai ficar.

Criando Sinfonia

Faltam-me pedaços de uma todo incerto. Nessa completude variante de momentos arredios, me falta o prazer de ser e o verdadeiro ter. Nesta minha incapacidade acertada com as mutações dos dias passantes, sou encontrado delirante pelas ruas da cidade, chamando nomes e gritando apelos. Essa saudade que sempre me encontra, na falta que faz estar em lugar qualquer como dois e voltar ao mesmo como um. A mesa continua lá, mas brindo as sombras das horas. Esses pedaços amargos de lembrança, o seu cheiro, riso. Antes fosse tudo do que apenas um passeio nessa maré. Das lembranças, só palavras, nas histórias, uma frase ou duas, perdidas fazendo rodas nas gotas de chuva. Pergutas carregadas de "quando" e "quem" procuram em olhares diversos uma incerta melodia. Sinfonia sem condução, em altos e baixos carregados de tambores e violinos, desordenados e desconcentrados. Mantendo a calma e sem desespero, chega ainda, carregado em braços e abraços, a ordenação mais simples, descoberta por um beijo carregado de mil mais.

Só Você Pode

É alegria que você me passa, não fantasia. É lembrança de vida e não o fim. São momentos felizes, nada de tristeza. Os momentos feitos e não o passado. Seu sorriso acanhado e as brincadeiras. Quero estar próximo dessa beleza. Dessa vida completa, mesmo cheia de lacunas. Ver o futuro pelos seus olhos. Esperar que um dia seja verdadeira. Olhe a sua volta e volte a grandeza. Nos momentos felizes e mesmo na tristeza. Volta e seja quem um dia brilhou tão alto. Quero ver sua alteza dando meia volta. Ter a certeza, qualquer dia que seja. Que no dia certo, você não esqueça. Tem muita gente esperando que você volte. Sem flores, ou graças, mas como sempre foi. Sem egoismo ou cheia de razão, mas simples como ninguém. Espero que nesse fim, escolha o caminho certo. Não precise que o caminho seja escolhido por ninguém.

Volta a Incomodar

Entender é difícil e devo dizer quase impossível, mas tento. Essas ações contrariam, deixam confusas as intenções e apesar disso, procuro avaliar o comportamento e entender as reações. Na minha racionalização, noto ser incapaz de pensar linearmente quando emoções estão no meio. Não sei estar fora de controle. Preciso dominar a situação logo de início ou me entrego a ela. Nenhum dos lados é na verdade uma boa escolha. Ao dominar, a vontade se perde quando chega seu apogeu. Na entrega, se fragilizar de forma íntima, despejando inteiramente todas as vontades nas mais diversas intensidades. Essa entrega insana necessita de contenção. É quando começamos a nos amar. Talvez seja bobagem falar disso, mas é a verdade. Não que antes de encontrar alguém, precisamos nos amar. Para saber como amar, temos de aprender a colocar o nosso amor em primeiro lugar. Não ser egoísta, mas realista, por que no fim, se o caminho seguido não for o esperado, mesmo que se ame, a dor ainda domina, assim como o orgulho e a raiva. Amor próprio é o que faz amar, priorizar esse amor é o que nos faz mantê-lo.

Erro Meu

Movimentos incessantes dos meus atos. Não mais preso pelo passado, mas dono dele. O que aconteceu não se deixa esquecer, mas me ensina a mudar. Errei tantas vezes quantas tentei acertar. Não seria quem sou sem errar. Vejo em pedaços as fotos e recados, cartas e lembranças. Testemunhas do meu comportamento arredio, que não escondo. Não deixo mistério sobre o que sou. Um ser humano, um homem. Errando mais por saber que estou errado. Erro em dobro pelas conseqüências. Errei querendo errar. Nesse rumo, errei a rima, errei muro, errei saída. Não quero voltar mais, não quero corrigir. Não vale apena ser corrigido. Voltei a ser amigo dos meus erros, quando quero. Não conto histórias falsas de vida, tentando proteger-me das próprias iniqüidades por mim acometidas e escondidas dentro da consciência. Esquecidas estão às máscaras e os jogos que escondiam o passado que todos têm, jogando com emoções. Estou fora desse carnaval. Torcem-me o braço me forçando abraços. Pois quero ser eu mesmo. Definam-me por erros e acertos. Pois esse sou eu.
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