Subindo Ao Palco

De nada vale palavra dita em suspiro. Coração que bate forte é o mesmo que se cansa de bater. Não adianta a dúvida sem a possibilidade de uma solução. Então sentamos e assistimos o espetáculo. Rimos e nos emocionamos, sentados na ponta da cadeira, com medo do que pode acontecer. A cada som, algo diferente. Em cada movimento contorcido uma nova figura. A música se eleva e as palmas explodem. Somos então velhos jovens. Encontrando alegria na mais pura fantasia. Até que a cortina se fecha. O som cala e as luzes se apagam. Fica então a saudade da esperança na beleza que balança numa corda lá no alto. Deixa de lado a lembrança e fica só o desejo de querer estar no meio, mas com medo de estar. Artista sem picadeiro, vagando o vazio sem aplausos, maquiagem ou equilíbrio. Sem sorriso ou lágrima, amor ou rancor. Nada para mostrar a não ser o espaço em branco iluminado por uma luz branca. De nada vale o suspiro se a palavra não é dita. De nada vale dize-la se só suspiro for.

Te Deixo Dormir

Em silêncio, toco seu rosto com o lado carinhoso de minha mão - dorme coração - quero assim te ver descansar desse turbilhão de momentos indecisos. Quero que adormeça nos dias de sol e só acorde nas noites de lua cheia. Quando a loucura permeia e você pode ser livre, insano. Lembrar talvez um dia de quanto amo, mas agora você precisa adormecer. Acamar esses pensamentos soltos de tempos passados. Lembrar do que existe entre você e eu, esquecendo de quaisquer outros. Adormece então no meu peito, esse teu desejo de saltar ao ver aquele rosto ou ouvir aquele som. Fecha os olhos lentamente da saudade que te aperta. Deixa tudo adormecido, o romantismo, o carinho e espera a lua voltar. Enquanto não chega, de leve vou pisar, que é para não te acordar.

Only Angels Have Wings

Tudo faz sentindo melhor em preto e branco. As palavras ditas rápido e a cada sentimento diferente, algo novo aparece, como antes já esteve. Tudo é mais leve e ao mesmo tempo todos carregam um peso de uma vida inteira num segundo. Nada é simples e feliz, nada se enrola durante uma hora e por um tempo, tudo parece real e natural, como se a vida no geral fosse assim. Nada é feito de sonhos e o real é seco e feliz. A vida é um risco tomado a cada dia que passa e em todo corte da câmera. Não a nada mais do que um dia acordado e outro dormindo.

Lágrima em Sorriso

De nada sabemos desse nosso destino torto. Temos os sonhos, as vontades e os desejos, mas nada de concreto nesse futuro cheio de galhos esperando outro dia de estação para florecer. E eu aqui, quero agora tudo que queria ter. Fico com raiva, sem saber o que faça para esquecer. Já gritei da janela e dei murro em parede. Insônia e noites mal dormidas relembrando as partidas dos galhos fracos que o inverno quebrou. Lembranças do fruto mucho que o verão secou. Entre os dois extremos essa vida me deixou. Espero o vento frio ou o sol escaldante? Olho distante para uma história de amor. Onde o céu amava o mar e no meio, horizonte ficou. Vejo a chuva chegar e penso nisso. Quando um toca o outro, como o carinho de uma gota de lágrima em sorriso incontrolável. Quando a noite chega e os dois se tornam um. Não sei de destino, mas do impossível e que nada existe com tal nome. Então não me acanho e aguardo minha chuva, minha noite e seu sorriso lacrimejante.

Outro Eu...

Cansado de esperar essa vinda inesperada, melhor se atirar na indiscreta incerteza e aguardar a chegada do sonho. Esse não sou eu. Não fiz caso do sentimento nem o deixei coado. O bom e o ruim devem andar lado a lado, equilibrados. Não fiz nada disso. Em momento algum duvidei da fragilidade da mulher acanhada e sua determinação na procura por entendimento, tanto dela quanto meu. Nesse momento, não era eu. Principalmente, não deixei desistir, nem comandei sua vida ou joguei com a minha. Quis ser mais do que era e hoje, sou. Queria que fosse mais do que é e hoje, talvez um dia. Mas não me vem ao caso tal obrigação. Não sou eu na mão. Nem beijo apertado e muito menos uma palavra romântica. Cheguei a ser pergunta e nunca resposta. Mas cansei de querer entender e até de saber mais do que queria. Segurar a dúvida vazia. Cansei desse eu. Foi outro eu.

Saliva

Em cada encontro rodeado pela madrugada chuvosa dessa cidade, um beijo diferente me aguarda salivando desejo na minha solidão. Quero ser somente um, mas cada noite solitária me empurra para novos e desatentos braços, pernas e lábios. Nada sei desse próximo metro caminhado, apesar do que, acredito estar próximo do caminho, mas longe do destino. Mesmo com as dúvidas inerentes a qualquer ser pensante, respingo tinta vermelha na tela branca. O tempo agora é do desejo e loucura. Se olhar para trás em arrependimento, viro sal. Prefiro queimar nas chamas da luxúria do que acovardar-me diante do novo. Para encontrar o beijo certo, preciso beijar de novo. Não mais sozinho, mas completo. Não por outra pessoa, mas por mim. E cada vez que me afasto e olho nos olhos delas, penso na felicidade.

Essa Vida Vivida

Nem sabe o que vem ou quando volta. Tudo acaba um dia e já no fim, sem saber por que, perde toda a incerteza da certeza do que devia ser. Pode viver sem destino, mas um dia o destino te bota no lugar, mesmo que não queira. Nessas viagens de palavras, o certo é correr para longe e olhar a fumaça subir do que ficar perto do fogo e se queimar. Saber o que me espera, do lado em que estou, nem sei se quero ou se vou, mas sei que em algum lugar, depois de respirar fundo, vou parar num canto sem rumo, que foi para lá que acabei por rumar.
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