Lágrima em Sorriso

De nada sabemos desse nosso destino torto. Temos os sonhos, as vontades e os desejos, mas nada de concreto nesse futuro cheio de galhos esperando outro dia de estação para florecer. E eu aqui, quero agora tudo que queria ter. Fico com raiva, sem saber o que faça para esquecer. Já gritei da janela e dei murro em parede. Insônia e noites mal dormidas relembrando as partidas dos galhos fracos que o inverno quebrou. Lembranças do fruto mucho que o verão secou. Entre os dois extremos essa vida me deixou. Espero o vento frio ou o sol escaldante? Olho distante para uma história de amor. Onde o céu amava o mar e no meio, horizonte ficou. Vejo a chuva chegar e penso nisso. Quando um toca o outro, como o carinho de uma gota de lágrima em sorriso incontrolável. Quando a noite chega e os dois se tornam um. Não sei de destino, mas do impossível e que nada existe com tal nome. Então não me acanho e aguardo minha chuva, minha noite e seu sorriso lacrimejante.

Outro Eu...

Cansado de esperar essa vinda inesperada, melhor se atirar na indiscreta incerteza e aguardar a chegada do sonho. Esse não sou eu. Não fiz caso do sentimento nem o deixei coado. O bom e o ruim devem andar lado a lado, equilibrados. Não fiz nada disso. Em momento algum duvidei da fragilidade da mulher acanhada e sua determinação na procura por entendimento, tanto dela quanto meu. Nesse momento, não era eu. Principalmente, não deixei desistir, nem comandei sua vida ou joguei com a minha. Quis ser mais do que era e hoje, sou. Queria que fosse mais do que é e hoje, talvez um dia. Mas não me vem ao caso tal obrigação. Não sou eu na mão. Nem beijo apertado e muito menos uma palavra romântica. Cheguei a ser pergunta e nunca resposta. Mas cansei de querer entender e até de saber mais do que queria. Segurar a dúvida vazia. Cansei desse eu. Foi outro eu.

Saliva

Em cada encontro rodeado pela madrugada chuvosa dessa cidade, um beijo diferente me aguarda salivando desejo na minha solidão. Quero ser somente um, mas cada noite solitária me empurra para novos e desatentos braços, pernas e lábios. Nada sei desse próximo metro caminhado, apesar do que, acredito estar próximo do caminho, mas longe do destino. Mesmo com as dúvidas inerentes a qualquer ser pensante, respingo tinta vermelha na tela branca. O tempo agora é do desejo e loucura. Se olhar para trás em arrependimento, viro sal. Prefiro queimar nas chamas da luxúria do que acovardar-me diante do novo. Para encontrar o beijo certo, preciso beijar de novo. Não mais sozinho, mas completo. Não por outra pessoa, mas por mim. E cada vez que me afasto e olho nos olhos delas, penso na felicidade.

Essa Vida Vivida

Nem sabe o que vem ou quando volta. Tudo acaba um dia e já no fim, sem saber por que, perde toda a incerteza da certeza do que devia ser. Pode viver sem destino, mas um dia o destino te bota no lugar, mesmo que não queira. Nessas viagens de palavras, o certo é correr para longe e olhar a fumaça subir do que ficar perto do fogo e se queimar. Saber o que me espera, do lado em que estou, nem sei se quero ou se vou, mas sei que em algum lugar, depois de respirar fundo, vou parar num canto sem rumo, que foi para lá que acabei por rumar.

Quero-te ler uma história que começou numa noite:

Enquanto a fumaça paira pelas luzes aparecendo e desaparecendo a cada segundo iluminado e outro soturno, aguardo o momento preciso e a trajetória determinada pela visão aguçada de um jogo de bilhar, me surge uma idéia que até então não havia ocorrido pelo acaso de fatos e momentos tidos como importantes e logo em seguida, inócuos até que por momentânea sinapse, se desenvolveram em algo de grande importância. Completamente sem qualquer motivo aparente além do desejar da presença, procuro qualquer meio de contato na busca de sua companhia. Atordoado com o possível fato de não poder locomover-se ao recinto, me prontifico inteiramente a sua disposição. Observo logo em seguida a lua e a vejo cheia de esperanças assim como meu sorriso sem razão e caminhar saltitante.

Caminho até o veículo estacionado e observo o caminhar lento e possessivo de um gato pardo encima de uma estrutura. Por meros segundo, possuo a confiança de tal felino quando me esgueiro pelas ruas e sigo meu caminho. Desapercebidas, pessoas caminham pelas calçadas sem a menor idéia que dentro daquele automóvel, naquele exato segundo, existe alguém feliz. O ritmo do som e o bater do pé no assoalho do carro procuram ao mesmo tempo distrair tão nervoso motorista.

Desde o momento em que o movimento contínuo de rodas me levava de encontro a tal porta até o instante seguinte no qual me encontro a frente da mesma, não poderia imaginar tamanho aumento na pressão sanguínea que percorre meu miocárdio. Numa respiração, aperto por menos de segundo a campainha e me afasto. Os passos, primeiro em assoalho e logo em seguida silenciosos, aproximavam-se a minha frente, obedecendo o chamado melódico. Novamente os passos surgem, agora parados e acompanhados de uma sombra, vista pela fresta baixa da porta. A fechadura aparenta demorar séculos para ser aberta. O trinco se retorce e acompanha um rangido e uma voz: - Oi!

Uma Gota D'alma

Nesse canto vazio, aprendo quem sou. Palavras soltas, rodeadas de princípios sem meio ou fim. Vida comentada e dissecada entre linhas imaginadas e dedos agitados pelas emoções diárias. Se não fossem algumas mágoas, tudo seria descrito como alegres passagens da vida, mas como existem, quem sou eu para negá-las. Devo me esconder num imaginário estático de alegria falsa? Cada lágrima tem sentido em ser derramada. Sai direto da alma, pois o que vê não nega e o que sente, transborda. E toda solidão tem seu destino. Se nunca estivesse sozinho, não saberia o que é amor, sua cor e valor, essa prosa indescrita, indiscreta e desmedida, mas principalmente e com toda a força das palavras, sagrada e milagrosa.

No Caminho, Um Beijo e Uma Vida

No caminho, sozinho, senti um espinho. Retirei lentamente apesar da dor e continuei. Mais adiante, encontrei uma flor. Senti o seu perfume sedutor e segui. Pouco tempo depois, encontrei um lago. Banhei-me, bebi de sua água clara e fui adiante. Vi então moça bonita caminhando com uma cesta de frutas. Ofereceu-me uma maçã e um beijo. Provei dos dois e segui meu rumo. Pouco depois encontro um velho, de bengala na mão e uma carroça quebrada. Ofereço ajuda e ele não fala nada, conserto a carroça e nada me diz. Estendo a mão e nem um gesto. Sigo então minha trilha por ser melhor assim. Quando estou seguindo o caminho, o velho me puxa e diz:

- Essa carroça é sua meu jovem, pegue e volte por onde veio ligeiro. Alcance a moça com frutas e beijos ela é sua também. Construa uma casa ao lado do lago de banho e plante as sementes, colha a flor de perfume sedutor e entregue a ela como quem pede perdão e não deixe que nela entre espinho no pé, ela não merece dor.

- Por que diz isso o senhor?

- Fiz esse caminho. Já deixei cair espinho, plantei uma flor, vi chuva encher lagoa e mulher bonita por mim já passou, não quis seguir em frente e nem posso mais voltar e tudo que você vê um dia pode mudar. Faça uma vida jovem porque um dia a carroça quebra e esperando você vai ficar.
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